🧩Análise Macro - Prata
- Alexandre Palazzo

- 8 de jan. de 2022
- 7 min de leitura
Atualizado: 6 de fev. de 2025
Resumo
Moedas como dólar e euro vem sendo criados sem que haja qualquer lastro para elas. O processo perdeu o controle e passou a ser necessário para manter as bolsas e mercados imobiliários do mundo em pé.
Em uma crise inflacionária as pessoas procuram bens reais, elevando a cotação de metais que já foram lastros de moeda (ouro/prata).
Nessa reação, o ouro sobe primeiro e mais devagar. A prata sobe depois e mais rápido. O ouro já alcançou seu topo histórico, a prata ainda não.
Em comparação à bolsa americana, a prata está muito barata e tem muito espaço de alta.
Trade: compra de ativos relacionados à prata (ações de mineradoras, ações de depósitos de prata e barras físicas do metal) até US$24/oz, venda parcial a US$48/oz, alvo final perto de US$300/oz, envolvendo 2% do meu patrimônio total no momento da compra.
Por Alexandre Palazzo
Publicação original em 10/08/2020. Atualizada em 08/01/2022.

A impressão de moedas sem lastro
Uma pequena aula de história: as primeiras cédulas de dólar eram certificados de ouro, resgatáveis pelo portador junto ao tesouro nacional dos EUA. O lastro em ouro e prata está previsto na constituição americana e foi respeitado até 1913, ano da criação do Federal Reserve (FED), o Banco Central de lá. A partir de então, o dólar foi sendo desvalorizado aos poucos em relação ao ouro, através do acordo de Breton-Woods. Até que, em 1971, o presidente Richard Nixon descolou por decreto o ouro do dólar, liberando o FED a produzir moeda sem nenhum lastro, e tornando a cotação do ouro (e por consequência da prata) flutuante.
O lastro em ouro era a prova material de um trabalho (mineração), tornando a moeda nacional uma representação deste trabalho mais fácil de transportar, armazenar e negociar do que pedaços do metal. Se mais riqueza (bens e serviços) fossem criados através de mais trabalho, haveria uma justificativa para a criação de mais dólares, ainda que esta riqueza não fosse necessariamente mineral. O problema é que esta realidade mudou em 2008. O FED, diante da Grande Crise Financeira, aplicou o Quantitative Easing, que pode ser traduzido como “Afrouxamento Monetário”: a criação de dinheiro em quantidades cada vez maiores para comprar ativos do governo e do mercado, objetivando evitar quedas de preço e falências, tanto de pessoas quanto de empresas. A primeira rodada de QE envolveu cerca de US$ 700 bilhões, dinheiro que foi usado para salvar bancos que haviam investido mal, agido de forma ilegal, anti-ética com seus clientes e até fraudado análises do risco que estavam correndo em suas operações.
O Produto Interno Bruto dos EUA, maior economia do mundo, não vem acompanhando desde a Grande Crise Financeira a criação de papel moeda (ou sua versão virtual nos bancos). Na figura abaixo, em verde, vemos o estoque de dinheiro (M2 Money Stock) não mais seguida de perto pela linha vermelha, o PIB (GDP ou Gross Domestic Product). A variação é percentual, tomando como base o ano de 1959. A fonte dos meus gráficos é o site www.tradingview.com.

O ouro e a prata como lastro do mercado
Se o governo americano passou a desconsiderar o ouro como referência para a emissão de moeda, o mercado não esqueceu de suas origens e ainda vê uma relação direta entre reserva de dinheiro e cotação dos metais. Se por um lado não existe mais lastro, existe a consciência coletiva de que algo errado está acontecendo com a política monetária guiada pelos bancos centrais.
Em diferentes momentos da história, o dólar foi impresso demasiadamente para abafar crises econômicas. O ouro e a prata se valorizaram como conseqüência, alguns anos depois. Em 1935 (depois do crash de 1929) a cotação do ouro disparou de US$20 para US$34. Em 1980 (pós-crise do petróleo e da hiper-inflação americana) este salto foi de US$35 para US$850. Entre 2005 e 2011 vimos o ouro subir até seu topo histórico, pouco abaixo de US$1950 a onça (aproximadamente 30g). Este topo foi rompido em 2020.
A prata, por sua vez, reage também como o ouro, mas de forma atrasada e mais vertical, como podemos ver no gráfico abaixo. Ele mostra que os últimos ciclos tem sido mais amplos em tempo e porcentagem de valorização. O momento atual é ímpar, pois nunca vimos tanto dólar sendo criado do nada, com a economia encolhendo e deprimindo mesmo antes da epidemia que hoje nos atinge. Por isso adquiri, entre 2017 e 2020, posições em ouro. E desde julho de 2020 comecei a comprar prata através de ETFs na bolsa de NY.

O ouro já decolou e a prata está decolando
Como mencionei anteriormente, a prata possui uma reação atrasada e mais violenta do que o ouro. Como o ouro decola primeiro, a prata fica momentaneamente barata em relação a ele. Historicamente, o ciclo se define como uma variação entre 1 e 6% entre as cotações. Consideramos o ouro mais interessante quando a prata custa 6% do seu valor. E a prata fica muito barata quando custa apenas 1% do valor do ouro.
O gráfico abaixo mostra não só estes valores de referência mas uma esticada no movimento de queda relativa da prata em 2019 e 2020, anos de forte alta do ouro em dólares. Caímos muito abaixo de 1%, com todos os vendedores esgotando seus estoques. Em análise técnica chamamos essa esticada final de “exaustão" da tendência, que agora está sendo revertida para alta (olhando bem de perto os últimos anos, cada topo tem sido maior que o anterior).

Apesar de ter os meus alvos de venda em dólar, vou observar atentamente a relação prata/ouro, podendo rever a conduta dos trades conforme o comportamento dos dois metais no correr dos anos.
Tudo o que sobe, desce
O ditado fala de uma obviedade que muitas vezes o mercado esquece - nenhum ativo vai se valorizar para sempre. O ciclo econômico implica na migração de capital entre diferentes setores e ativos. O capital se movimenta e se concentra a cada fase, pois quem controla grandes fortunas costuma se antecipar às mudanças, engolindo agentes menores e menos preparados, que chegam sempre no fim da festa e saem no prejuízo. Ao estudarmos o ciclo prata x bolsa, notamos que nos últimos 20 anos temos as 4 fases presentes: fundo arredondado, expansão, topo agudo e queda. No gráfico, a prata fica mais barata em relação à bolsa americana em 2000, sobe até 2011 e cai novamente até 2020. O novo fundo arredondado indica a chance de uma nova fase de alta, com pouco mais de 10 anos de duração. Neste período prata e bolsa podem até subir, mas a tendência é do metal se valorizar mais do que as ações.

O índice que usei para a comparação foi o SP500, ou SPX, que monitora as 505 ações de maior valor de mercado em NY. Adicionalmente, utilizo o Índice de Força Relativa - RSI ou Relative Strentgh Index) para mostrar outro aspecto interessante: antes da última disparada da prata sobre a bolsa, o RSI deu um salto para quase 70 pontos. Os preços ainda não haviam reagido, mas a força do metal já se pronunciava. Curiosamente, o mesmo aconteceu em 2020. O fundo nos preços ainda está em formação, mas o RSI nos dá um claro sinal de alta iminente.
Trade realizado: entrada, gestão de risco e saída
Realizei minha primeira compra do ETF SLV em Jul/20 a US$19.50. O ETF (Exchange Traded Fund) é um fundo de ativos negociado em bolsa. Podem ser commodities, ações e outros. O SLV segue a cotação da prata no mercado americano com bastante precisão. Segui comprando até que a cota bateu em 25 dólares. Somado a outros ativos do mesmo setor, comprei um total de 2% do meu patrimônio em prata. Não permitirei que a valorização torne este investimento maior que 10% de meu patrimônio total, padrão que adoto em todas as minhas operações. Tenho um gatilho de balanceamento nos 10%, seja porque esta compra subiu demais ou porque o resto dos ativos caiu muito.
Terei uma venda parcial a fazer perto de 48 dólares. Com um preço médio de US$20, venderei um pouco menos de metade da minha posição, recebendo de volta todo o capital investido. A partir daí, minha reserva em prata pode até cair de preço sem que eu esteja sujeito a qualquer prejuízo monetário. A prata remanescente eu só vou vender quando entender que a fase de alta do ciclo está encerrada. Estimo um valor de US$300 para esta venda, mas vou monitorar todos os indicadores anualmente (prata/ouro, prata/bolsa e prata/dólar) para não perder alguma mudança imprevista de rota. Além de SLV, comprei mineradoras de prata pelos ETFs SLVP e SIL. Estas não tem alvos de venda: quando vender SLV, as demais irão acompanhar o movimento, já que o preço do metal é o que guia o preço de quem o retira da montanha. Os detalhes de cada trade você vê nos gráficos comentados abaixo.



Esta é uma operação de longo prazo, sem stop por tratar-se de um ativo defensivo que sobe de preço também em caso de crise econômica. Um crash que ameace minha fonte primária de renda pode ser amortecido pela alta de ativos anti-frágeis como prata, ouro e dólar. Logo, se os preços caírem muito mais, o que considero improvável, vou manter a carteira balanceada anualmente, comprando mais prata (metal e mineradoras) e mantendo 2% do patrimônio com ela.
Conclusão
Desde que comecei o investimento em prata o preço oscilou bastante, e ainda podemos ver alguns meses de “sofrimento” pela frente, ou de oportunidade para quem ainda não conhecia os ativos e está chegando agora. Olhando de longe, nos ciclos de 10 anos, a prata se oferece em uma condição de risco/retorno muito melhor que a da bolsa americana. Se o preço cair mais, farei novas compras para manter 2% do meu patrimônio investido. Entendo prata e ouro como excelentes defesas contra crises, em especial as inflacionárias. Se o FED for incapaz de segurar a inflação americana com a alta dos juros anunciada recentemente, teremos o componente que falta para este trade ser bem sucedido e proteger o restante dos meus investimentos. Considero também adquirir metal físico, mas algumas dificuldades logísticas e de liquidez me mantiveram preso às compras pelo mercado financeiro.
Disclaimer: Esse texto reflete a opinião do autor e não constitui uma sugestão, recomendação, indicação e/ou aconselhamento de investimento. Nenhuma decisão de investimento deve ser tomada com base nas informações ora apresentadas, cabendo unicamente ao investidor a responsabilidade sobre qualquer decisão que venha a tomar. O autor detém e/ou negocia ativos ligados ao tema abordado em sua carteira proprietária.




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